E quando os homens não querem saber da Criação com Apego?

 

Texto originalmente publicado no Blog “Paizinho, Vírgula”, do meu amigo Thiago Queiroz, que merece a sua visita: http://www.paizinhovirgula.com.

Em primeiro lugar, eu quero agradecer ao convite generoso do Thiago para escrever aqui, neste espaço que considero um marco nas iniciativas brasileiras de espaços masculinos de partilha. É um prazer poder conversar com homens queiram ampliar sua consciência sobre a enorme transformação que vivemos quando um filho aparece em nossas vidas. Muito prazer, eu sou Alexandre, sou pai de três meninos e construindo uma vida e uma família com Daniela há quase vinte anos. Trabalho como psicólogo de famílias e casais, escutando suas histórias de desafios e resiliências, de dores e superações. Tenho imenso amor pela minha profissão, que me entrega o privilégio de estar cada dia mais em contato com a diferença humana, aprendendo que há muito mais do que múltiplas maneiras de estar neste mundo, construindo uma vida autoral e cheia de cor.

Thiago me pediu que escrevesse sobre uma circunstância muito frequente nas histórias que escutamos todos os dias, nos espaços virtuais ou reais de discussão sobre a criação com apego: e quando o meu marido não entende, não aceita, julga e não quer participar desta forma de educar nosso filho? Como sair deste impasse? Que repercussões esta dissonância tem sobre o a minha relação conjugal e sobre processo de desenvolvimento da criança?

Eu pensei este texto justamente para conversar com este homem que, com todo o direito, deve achar esta conversa toda de criação com apego, grupo virtual, encontros de mulheres de sling e que amamentam o filho até ele poder correr e mamar em pé, uma verdadeira “festa estranha com gente esquisita”. É para você este texto. Eu lhe convido a continuar a leitura dele com calma, respirando naqueles momentos em que ele lhe parecer ainda esquisito demais. Quero lhe ajudar a começar a entender estas “esquisitices” que sua mulher anda lhe falando, e mais, querendo que sejam a tônica da educação do seu filho! Vamos lá, então. Há muito o que conversarmos.

Para começar, imaginemos uma história: você, hoje adulto e já com filhos, teve pais muito severos, que lhe bateram quando criança porque isto era “o certo”, aquilo que eles aprenderam que deveriam fazer para serem considerados pais adequados. Alguma coisa em você, durante aquele tempo todo, lhe deixou um gosto amargo na boca: você pode até ter aprendido que “eu mereci, porque era danado”, mas sem dúvida gostava mais dos momentos em que recebia um abraço, um colo, um sorriso. Mas a vida não é só sorrisos, então seus pais lhe ensinaram que, para enfrentar a crueza da vida, que é grandiosa, é preciso que você seja tratado de forma firme, para “endurecer o seu couro”, como dizem lá em Minas Gerais, minha terra natal. É preciso que você seja talhado como um homem forte, com uma rudeza que de fato ainda lhe confere um certo ar cruel de quem sabe o que quer, quiçá mais sensação de virilidade, força e sex appeal. Aí você casa com uma mulher que, de repente, descobre uma tribo aí, que pensa umas coisas muito diferentes sobre como criar os filhos, que vão exatamente na direção oposta àquilo que você aprendeu como “o certo”. Pronto. É o prato cheio para eclodir uma crise conjugal, porque afinal, todos sabemos que é necessário que os pais tenham um mínimo de coerência na forma de construir o cotidiano da educação de um filho.

Então, há um impasse. Ou eu abandono as minhas certezas sobre o que é certo e o que é errado na educação de um filho, ou meu casamento pode realmente viver um abalo sísmico. Não vou conseguir ver todos os dias a minha mulher praticando coisas que eu acho que vão deixar meu filho mimado, frouxo, mal-acostumado, frágil e sem condição de enfrentar a vida como ela é. Sobretudo, que não vai entender que ele errou, que ele merece um castigo severo para não repetir aquela coisa errada nunca mais.

Acontece que abandonar estas certezas não é uma tarefa simples. Se você se dispuser a isso, primeiro vai ter que pesquisar muito, e ver se esta história procede, se já existem filhos adultos criados sob esta perspectiva (o que terá sido o destino destas crianças?). Depois, vai ter que enfrentar um sentimento muito forte: negar os seus pais. Criticá-los, ainda que internamente. Assumir uma postura diferente na educação dos nossos filhos é, de alguma forma, assumir que queremos fazer coisas diferentes do que nossos pais fizeram conosco. Isto seria uma quebra de lealdade? Estaria você sendo ingrato com tudo o que eles fizeram por você?

Sinceramente, eu acredito que não. Eles só fizeram aquilo, daquele jeito, porque estava escrito em todos os lados (nas opiniões das pessoas, no que eles aprenderam com os pais e avós, nos livros, nos sermões dos padres, etc.) que eles deveriam ser muito, muito severos, sob pena dos filhos não vingarem enquanto profissionais, cidadãos ou pessoas de bem. Aquela cultura, chamada por historiadores, sociólogos e antropólogos de cultura patriarcal, rezava esta cartilha. Os filhos deveriam ser criados pela mãe, reproduzindo o rigor de um pai austero. Em geral, este pai era um provedor, que ficava só do lado de fora da casa buscando o sustento desta família. A prática cotidiana da educação ficava com a mulher, que mesmo que trabalhasse precisava ter dupla jornada com os filhos. O pai não tinha espaço para sentir, para viver emoções mais profundas. Ele tinha que reprimir a expressão de várias emoções, limpar-se delas, para aparentar sempre a força, a disposição e a dureza para enfrentar a vida.

Por isto, seus pais foram talhados nesta cultura. E aqui, entre os que praticam a criação com apego, estamos sugerindo uma outra cultura alternativa, ainda tímida no seu tamanho com relação à patriarcal que ainda é a dominante. Mas um movimento que vem crescendo. Sabe o que nos caracteriza? Uma crença, baseada em evidências científicas e não somente em achismos, de que aquilo que a cultura patriarcal nos ensinou a reprimir (a expressão do amor entre pais e filhos, os sentimentos “femininos” do tipo “homem não chora”, o medo de errar, assumir nossas fragilidades, etc.) provocou em nós diversos sintomas que deixaram a nossa vida muito pior do que ela poderia ser. Homens muito reprimidos nestas emoções ficam mais agressivos, têm uma sensação menor de que são felizes, têm mais doenças cardiovasculares. Isso só para citar alguns exemplos, há tantas outras coisas que poderiam ser ditas sobre o tremendo prejuízo para nós, homens, de reprimirmos nossas emoções. Nós, desse grupo chamado “Criação com Apego”, queremos ter o direito de, enquanto homens, viver uma vida mais conectada com o que ela puder nos proporcionar de belo. Assumir que a beleza da vida, no seu cotidiano, não pertence somente às mulheres. Que nós não precisamos só ser a força bruta. Que nossos filhos nos ensinam a amar. Que eles nos trazem uma mensagem impossível de ser traduzida à perfeição em palavras: a experiência de ser pais pode reparar estas lacunas de vivências e sentimentos que a cultura patriarcal não deixou espaço para vivermos. Os nossos filhos são uma ampliação da nossa forma de viver. Um privilégio, um convite para vermos a vida diferentemente.

Por isso, eu compreendo perfeitamente que você duvide, questione, julgue esta escolha da criação com apego. Você está coerente com seus valores, porque aprendeu de outra forma, viveu de outra forma até aqui. Mas eu lhe convido a olhar para dentro de si (coisa que nós, homens, também não fazemos com nenhuma facilidade). Mas lembre-se desde a sua infância, naquilo que a vida teve a capacidade de lhe endurecer. É muito mais fácil ganhar amargura ao longo dos anos, o difícil e o que dá trabalho mesmo é envelhecer com ternura. Sim, ternura. Venha conhecer um pouco desta história de Criação com Apego, e desconfie. A sua desconfiança lhe é protetora. Mas investigue. Centre-se no amor profundo que o seu filho lhe convoca a sentir, mesmo que você não imagine ainda que este amor todo seja possível de ser sentido. Imagine que ele esteja lhe convidando, através deste amor incrível e desta confiança que ele já deposita em você, a conhecer formas diferentes de lidar com ele, que lhe tragam mais segurança emocional. Que ele não precise reprimir nenhuma emoção para ser feliz, que ele possa ser uma pessoa de bem, de caráter, cidadão íntegro e profissional dedicado, ainda que não tenha apanhado, vivido gritos que envergonham ou deixam a cicatriz tão visível da humilhação.

Esse é o meu convite para você. Entre. A porta está aberta. Aqui somos homens que continuamos com nossa masculinidade, nossa virilidade, nossa força para enfrentar a vida intactas. Mas que decidimos emoldurar estas características com o direito de sermos amorosos. E aprendemos que isso pode melhorar, e muito, as coisas. Você tem o direito de desconfiar. Desconfie. Leia. Informe-se. E se a sua mulher estiver abraçando uma ideia nova, esquisita, diferente, mas que pode ser muito bacana para o seu filho? Não vale a pena dar uma olhada, com detalhe?

Um forte abraço, meu caro. Obrigado por ter me lido até aqui. Há um grupo de gente muito especial, que este blog Thiago pode lhe direcionar se você quiser, que está discutindo esta história toda. Seja bem-vindo! E muita felicidade para você, seu casamento e seus filhos.

Com muita alegria,
Alexandre.

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