Porque APEGO? O que isto tem a ver comigo?

Uma das teorias que subsidiam todos os trabalhos do Instituto RODAVIVA é a Teoria do Apego, originalmente desenvolvida pelo psiquiatra inglês John Bowlby e por sua fiel colaboradora, a psicóloga canadense Mary Ainsworth. Juntos, eles construíram conceitos que hoje nos auxiliam a compreender um dos mundos mais característicos de nossas experiência humana: a formação dos vínculos com as pessoas, coisas e idéias mais significativas de nossas vidas.

O contexto do surgimento desta teoria foi o pós-Segunda Guerra Mundial. Toda a Europa vivia um problema social e uma preocupação entre os gestores públicos: o número de bebês e crianças que estavam órfãos de mãe ou também de pai. Qual seria, então, o efeito desta privação materna/paterna no desenvolvimento destes infantes? Que tipo de cuidados eles poderiam requerer do Estado, inclusive como medida de promoção de saúde?

Partindo destas perguntas iniciais, Bowlby empreendeu uma vastíssima investigação teórica, que culminou em um lugar de detrator da psicanálise, por ele ter ousado investir em estudos de Etologia, Psicologia do Desnenvolvimento, Psicologia Comportamental e Psicologia Cognitiva. Esta mente aberta para a complexidade era a sua marca, e por sustentar o seu paradigma para além das patrulhas ideológicas e epistemológicas que sofreu, Bowlby terminou por construir uma das teorias mais importantes da história dos estudos sobre comportamento humano. A parte empírica que a subsidiou também foi extensa, com métodos até então inéditos, como a “Situação Estranha”, que simulava em uma sala a saída da mãe (deixando o bebê sozinho por alguns segundos) e a chegada de um estranho. Estes e outros esforços metodológicos visavam compreender como nós, seres humanos, construímos nossos vínculos primários e como nos colocamos na vida diante destas ausências – seja em períodos de separações, seja em perdas definitivas.

Os principais resultados destas pesquisas teóricas e empíricas foram:
a) Nós, seres humanos, temos a tendência inata a nos vincularmos. Isto é uma questão etológica, que faz parte de nossa evolução enquanto espécie;
b) Esta tendência inata à vinculação “escolhe” uma pessoa no lugar de referência emocional, para a qual retornamos quando nos sentimos vulneráveis, em situação de desamparo ou após vivermos algum tipo de angústia. Esta pessoa é chamada figura central de apego, que majoritariamente é exercida pela própria mãe biológica;
c) Somos extremamente plásticos, desde bebês, em nossa capacidade de nos vincularmos e, sobretudo, de nomearmos figuras centrais de apego. Se nossas mães não estiverem, sobretudo nos dois primeiros anos de vida (fase de simbiose, em que o contato com a mãe é crucial para o desenvolvimento físico, psíquico, emocional e social do bebê), aparecem as figuras substitutivas, que ocupam o espaço deixado vago por estas figuras primárias ausentes;
d) Dependendo de nossa capacidade de ofertar segurança emocional, podemos ser co-autores de vínculos de quatro tipos: seguro, inseguro ambivalente, inseguro esquivo ou desorganizado [estes quatro estilos serão melhor explicados em um artigo futuro]. O seguro é o mais estável, e o desorganizado o mais perturbador para nossas emoções e vida social;

e) Enquanto estivermos vivos, vamos transformando nossa forma de construirmos vínculos e de lidarmos com as angústias das separações e perdas de nossas figuras centrais de apego. O que Bowlby e Ainsworth imaginavam como um padrão que se desenhava na infância e acompanhava perpetuamente as pessoas, hoje é visto como um aprendizado que pode ser desconstruído por novos vínculos intensos que alterem nossa forma de lidar com relacionamentos íntimos. Desta forma, o casamento pode reconfigurar um padrão inseguro em seguro, ou lamentavelmente promover o contrário;
f) Podemos aplicar estes conceitos às formas com que nos relacionamos na vida adulta: com nossos parceiros conjugais, com nossos filhos, com nossas profissões, com nossas causas, com nossas crenças fundantes.

Claro que estas pontuações são apenas um resumo bastante sintético de uma teoria que hoje engloba pesquisas nos cinco continentes, dezenas de teóricos com publicações nas revistas científicas mais relevantes da área, e aplicações infindáveis aos trabalhos com seres humanos naquilo que nos é mais caro: a capacidade de sustentarmos os vínculos com aqueles que nos são mais fundamentais. Somos apegados a alguém que nos orienta, ainda que seja na direção de sua própria antítese. Até para rebelarmo-nos, precisamos de uma referência nítida. Até para sermos diferentes, precisamos de uma fonte delineada que nos define como iguais a um grupo, uma cultura familiar, uma comunidade.

A Teoria do Apego nos ajuda a entendermos de que cola vincular nós somos feitos, como somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos e de que formas nossas experiências de vínculos significativos talham nossa forma de nos relacionarmos intimamente com aqueles que fazem de nossas vidas uma experiência gregária, de construção coletiva e interdependência saudável.

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