SIAPARTO – o casamento da ciência com a emoção da vida

Ana Cris, a memória viva do SIAPARTO em cada um de nós. Foto: Vivian Scaggiante, http://www.alemdolhar.com.br

Alguns momentos da vida mereciam uma moldura no tempo, como um quadro de memória a que pudéssemos retornar sempre que a saudade fosse imensurável. Circunstâncias da vida em que os ponteiros do relógio enfim descansam, e também se inebriam. O tempo pára, circunspecto, reverente, porque tem a consciência de que ali mora um pedaço do infinito. A vida é repleta de elementos desta natureza, em que o fluxo da existência não é tão corrente assim, e que os hiatos acontecem para que o mais íntimo suspiro em nós possa eclodir. Acreditem ou não, esta sensação de eternização do tempo, de epifania coletiva, foi vivida num evento científico com oitocentas pessoas, no meio da Avenida Paulista, em pleno feriadão de primeiro de Maio, concorrendo inclusive com a alegria esfuziante da parada gay.

O SIAPARTO – Simpósio Internacional de Assistência ao Parto, foi idealizado pela obstetriz e parteira Ana Cristina Duarte, a Ana Cris, há alguns anos. Ela é talvez a ativista mais importante no movimento pela Humanização do Nascimento no Brasil, porque tem a capacidade de transformar idéias em experiências de vida, crenças em números palpáveis, dúvidas em mãos dadas em prol de uma causa. Ela é uma força da natureza, que leva junto com seu imenso carisma um rol imenso de pessoas a conectar-se com a beleza e a sacralidade do nascimento humano. Há uma revolução em curso, transformando em nosso país os conceitos mais fossilizados sobre a tecnocracia imposta à atuação da natureza do corpo da mulher e do seu encontro com o bebê na hora em que este chega ao mundo. Este sistema tecnocrático de parto não sabe mais esperar pelo tempo da vida, nem quer conceder à mulher e ao bebê a centralidade e o protagonismo da cena do parto. E esta mulher, Ana Cris, é a antítese deste modelo, empunhando em suas mãos firmes a certeza da incoerência desta visão diante do inalienável direito humano que é nascer dignamente.

Juntamente com Ana Cris, os maiores expoentes da nova parteira urbana – assim chamadas as obstetras, obstetrizes e enfermeiras obstétricas comprometidos com os pressupostos da humanização – fizeram quatro dias de palestras, workshops e mini-cursos que já estão reverberando imediatamente na qualidade da atenção ao parto nas cinco regiões brasileiras. Os profissionais que ali estiveram já retornaram aos seus postos de trabalho (instituições de saúde ou domicílios das parturientes), e estamos colecionando histórias de partos naturais sucedâneos a intercorrências que muito provavelmente levariam estes mesmos profissionais a indicarem cesáreas como necessárias naquele momento. Isto não é pouca coisa, já que estamos falando de uma vida que tem o direito de nascer envolvida numa ambiência que lhe confere o que as evidências científicas provam ser o mais benéfico para a díade mãe-bebê.

Os olhos das pessoas que escolheram defender esta nova ambiência para a chegada dos bebês brasileiros vêm testemunhando cenas de beleza ímpar. As mulheres, seus filhos, cônjuges, familiares, parentes e amigos contam e recontam experiências abissais de nascimentos, em que a potência ritualística desta instância da vida é renascida em todos. Nasce um bebê, renascem todos à volta. Os grandes rituais têm esta função, de fazer-nos morrer em alguma dimensão interna, deixando espaço para outras novas fronteiras se abrirem diante de nossos dias. É só entrar nas comunidades de mulheres e profissionais humanizados nas principais redes sociais virtuais, e sentir a robustez das histórias, a sua capacidade de fazer tudo ficar ao contrário e ao mesmo tempo tão lógico. Estas cenas merecem deixar de ser minoria, porque todos somos merecedores de chegar a este mundo envoltos no manto mais protegido e confortável que nos for possível. E quando os olhos destas pessoas que trabalham de forma humanizada se fecham, os sonhos provavelmente lhes devolvem um caleidoscópio de esperanças de que, num breve porvir, possamos ter um país em que os bebês sejam recebidos com as lágrimas maternas escorrendo pela emoção de terem sido respeitadas em suas escolhas de como parir, e não por terem sido violentadas em seus direitos básicos.

Mas não são só as parturientes e seus familiares que vêm sofrendo violências obstétricas em todo o país – tema de relevância suprema, sobre o qual falaremos em um artigo futuramente. Os profissionais do parto humanizado, vistos pela máquina tecnocrática como irresponsáveis, delirantes e quixotescos, vivem em seus corpos a impregnação de um outro tipo de violência, menos visível ainda que aquela que as suas pacientes experimentam. Estes profissionais são desqualificados e humilhados em seus contextos de trabalho por colegas de todas as profissões, que se outorgam ao direito de classificar estas práticas emergentes com os adjetivos mais degradantes. Baixam-se decretos nas instituições de saúde, cerceando a entrada ou o espectro de ação destas pessoas que vêm solicitando mais protagonismo às mulheres em trabalho de parto. Entretanto, estas represálias do status quo obstétrico não são minimamente suficientes para debelar o desejo destas pessoas. Elas ganham ainda mais força, movimentam-se coletivamente, fazendo um avesso do avesso, contrariando a norma individualista de nossa época e fazendo das suas indignações um eco coletivo que se escuta à distância. 

Imagine, então, o encontro de oitocentas pessoas com as peles marcadas de histórias violentas, em que foram coartadas de agir profissionalmente. conforme seus paradigmas científicos lhes norteariam. Estas pessoas estavam ali, naqueles quatro dias, fazendo seus olhos encontrarem tantos outros, (re)conhecendo-se de outros espaços virtuais, abraçando-se em esquinas do pavilhão, emocionando-se com a convergência de tantas vontades, de tantas realizações marginais. Vendo o que era marginal transformar-se em um prenúncio de tolerância, sentindo que em rincões distantes das grandes capitais já existem iniciativas construindo o seu caminho rumo à solidez frequente das práticas mais instituídas. 

Há muito poder em reconhecer, num coletivo tão numeroso, tantos outros iguais a si. Há um mar vermelho que se abre nas dúvidas da alma violentada, há uma rachadura na desesperança que se fecha. Há um futuro que passa a ser visto com lentes mais precisas, menos baseado na fé e mais centrado nos chãos já pisados por tantos pés. Encontra-se, enfim, o oxigênio perdido na asfixia violenta dos nãos que recebem estas pessoas todos os dias, em todos os cantos que ousam aplicar suas práticas.

Por isso o SIAPARTO foi um renascimento para todos nós, que ainda vivemos em nossas gargantas os cordões da intolerância. Por isso voltamos para nossas casas e postos de trabalho orgulhosos de fazermos ciência com evidência, mas sobretudo privilegiando a nossa capacidade de sermos mais humanos quando a emoção dos grandes rituais não são desconfirmadas. Por isso somos todos reverentes a Ana Cris e a todos os profissionais que nos entregaram os seus saberes com o desejo mais sublime de reconectar-nos a esta visão do nascer que já corre em nossos capilares sem que força alguma seja necessária.

Por isto estas palavras, por isto esta epifania.
Por isto voltamos mais silenciosos ainda, diante do sagrado direito de nascer em paz.

E, por tudo isto, estamos mais vivos.

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