Nascemos humanos, tornamo-nos humanizados

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Causa-me fascínio a autonomia que as palavras têm para construírem uma trajetória de vida própria, aquém ou além de nossos propósitos para elas. Quando um grupo humano atribui um significado para uma palavra, está lhe entregando apenas o passaporte para que ela flua livremente no tempo e no espaço. Outras comunidades, outras culturas, outras épocas chegarão e tomarão o mesmo vocábulo, e farão com que ele tome outra roupagem. Porque o mundo da linguagem é o lugar em que tudo se desfaz e se refaz; os diálogos liquefazem a robustez dos adjetivos que parecem eternizar a descrição de qualquer fenômeno. Por isso mesmo este título entre o sombrio e o jocoso, entre o descrédito e a esperança, entre o lamentativo e o propositivo. Porque precisamos conversar sobre esta palavra que pode ser sólida se vier acompanhada de práticas coerentes, mas facilmente pode ser desmanchar-se em um paradoxo se for dita em um contexto que se apresente como o seu contrário. A palavra é HUMANIZAÇÃO. E se ela se fizer verbo, o nome do processo passa a ser HUMANIZAR.

O fato de precisarmos de tantos movimentos organizados, em tantas searas da vida, para trazer de volta as ações que possam fazer dos homens seres mais humanizados é, em si, um sintoma do caminho que percorremos em nossos processos civilizatórios. Ou, para sermos mais precisos, em nossa capacidade de fazer barbárie e maquiá-la ardilosamente com adjetivos civilizados. Porque a história nos mostra que a humanidade nos é concedida, mas atitudes humanistas são herdeiras de uma disponibilidade consciente. É como se tivéssemos que manter a vigilância constante, porque temos em nós a capacidade humana de sermos desumanos. Está aqui dentro, e não lá fora, o segredo de todo o caminho de volta. Temos em nós todas as paixões do ego, inclusive aquelas que são portadoras do potencial de sermos violentos e abusarmos dos poderes que vamos exercendo ao longo das fases da vida. Todos somos feitos de luz e trevas; então, o olhar é para dentro, cuidando para que não nos tornemos o avesso daquilo que gostaríamos de ser. De novo uma palavra dando voltas em seu próprio eixo: partir de algo absolutamente humano, podemos fazer eclodir o mais desumano em nós.

Humanizarmo-nos, nesta perspectiva, é equivalente a exercermos lugares de poder de forma menos vertical, menos opressora e claramente evitando humilhar e envergonhar aqueles ao nosso lado. Humanização pode ser entendido, nesta perspectiva, como a antítese do autoritarismo.

As posturas autoritárias estão em nós como memória recente e padrão relacional. Nossa história política deixou rastros e lastros poderosos para espaços institucionais de nossa sociedade se fartarem de poder autoritativo: famílias, escolas, empresas, religiões… estes e tantos outros sistemas sociais foram forjados em suas identidades normalizando a exclusão, construindo hierarquias que invisibilizaram uns em detrimento da excessiva legitimidade de outros. Felizmente, estamos em tempos revisionistas. As posturas normalizadas de ontem não encontram mais o silêncio que costumava referendar a violência, que podia inclusive não ser legitimador pela concordância, mas pelo medo da represália do poder autoritário.

Os movimentos afirmativos estão construindo um novo panorama, em todo o planeta, sobre aquelas categorias humanas que nós, como cultura, resolvemos etiquetar com as piores adjetivações. Foram tempos de construção das exclusões, de toda sorte. Quem nascia ou se desenvolvia com uma identidade fora da ordem mundial, nacional ou local, estava fadado à invisibilidade, à segregação, ao bullying cultural massificado, sem no entanto ter nenhum respaldo de um grupo que lhes ofertasse apoio, que lhes dissesse: a sua existência existe. A sua vida pode ter importância para o mundo. A sua identidade não é uma sentença de morte em vida.

As décadas passadas serviram de início de revisão das posturas autoritárias, e hoje estamos construindo o caminho de volta. Estamos nos retratando enquanto mundo, em nossa condição de violentadores sociais de tantas minorias que viveram a exclusão, o horror e até a morte. Queremos, neste momento, que nossas desculpas sejam cunhadas em atitudes amplas, gerais e irrestritas. Uma anistia social, uma anistia humana. Um dia lutamos contra a violência política, hoje lutamos contra a violência entre nós mesmos. Deixar florescer o mais que humano em nós. Humanizarmo-nos, portanto.

Todas as nossas afiliações a posturas de poder opressivas merecem ser revistas. Deixar que caiam no chão as armas autoritárias com que travestimos as nossas palavras e as nossas ações cotidianas faz um bem à alma inigualável; muito maior do que a sensação da perda de referências que pode advir em qualquer mudança de paradigma. Olharmo-nos no espelho, que poderá dizer-nos que somos mais belos do que nós mesmos no tempo em que acreditávamos que oprimir era o destino dos fortes, e suportar a opressão o dos fracos.

Desvestir-se dos poderes que nos garantem a soberania que tiraniza é o tom da nossa época. Trocar as lentes com que vemos os outros, encontrando neles virtudes que antes nos pareciam inconcebíveis, ao mesmo tempo em que olhamos para nós mesmos e conseguimos admitir que somos tão frágeis a ponto de precisarmos escalar em poderes autoritários para sentirmo-nos fortes. E assim, diante deste encontro entre aquele que é apenas humano com outro que é apenas humano, maravilhas começam a acontecer.

A maior delas é sentirmo-nos de volta à nossa condição humana.

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