Sobre as ativistas, seus gritos, as pedras e o amor que surge em nós

Ana Cristina Duarte, obstetriz e idealizadora do SIAPARTO, entregando o título de VHIP - Very Humanized and Important Person a Jorge Kuhn, no encerramento do evento. As ativistas estão todas nesta categoria!
Ana Cristina Duarte, obstetriz e idealizadora do SIAPARTO, entregando o título de VHIP – Very Humanized and Important Person a Jorge Kuhn, no encerramento do evento. As ativistas estão todas nesta categoria! Foto de Vivian Scaggiante, http://www.alemdolhar.com.br

 

Vou te contar, meus olhos já não podem ver

 Coisas que só o coração pode entender

Fundamental é mesmo o amor

É impossível ser feliz sozinho…”

Antônio Carlos Jobim, “Wave”

Nossa esperança anda cansada de guerra. Vivemos tempos em que a solidão é o prenúncio da discórdia, fruto da nossa progressiva escolha pelo retraimento, pelo isolamento que esqueceu que somos seres dialogantes, existentes somente no encontro humano. A reclusão significa a ausência de nós mesmos, denota um vazio que se expressa em angústias, ansiedades, depressões e compulsões. A escolha que o mundo nos ensina a fazer, cada vez mais imersos em nossas iCoisas, iCarreiras e iProjetos, traz um amargor existencial difícil de entender, porque é espelhado transculturalmente. Se todos vivem assim, onde está o “erro”? Se todos estão assim, o normal é estar adoecido?

A doença nunca precisou ser marginal para assolar a humanidade. Nossa história está marcada por pestes globais de toda sorte. A peste de agora se chama solidão. A miséria humana de nossos tempos é a nossa tristeza sem nome, é a nossa vida descolada da maravilha do encontro que não sabemos mais viver.

Mas nós, humanos, somos ao mesmo tempo algozes e resilientes de nossas próprias peles, somos lobos e cordeiros; há paz possível num entorno de guerra, há beleza escondida em nós esperando espaço de expressão. E há tanta gente permitindo que floresça uma contra-cultura coletiva, em tempos individualistas! Há gente conseguindo sair dos seus olhos fundos, sedentos de vida em grupo, encontrando espaços de coexistência compartilhada. Há muitas Carolinas surgindo por todos os lados, escutando as vozes chicobuarqueanas chamando para o encontro com uma vida que pulsa, com gente que pensa que pode valer a pena trazer uma causa na mão e o amor humano (simples assim) como elo. Há muitas mãos saindo da janela solitária com que fitam a vida lá fora e se entregando ao afeto; há muitos ombros se entregando aos abraços que renascem as desistências em um instante. Há muitos diálogos polissilábicos reconstruindo o caminho de volta a uma existência menos solitária e mais solidária.

Por exemplo, o Movimento pela Humanização do Nascimento, no Brasil.

Há um coletivo inimaginável de mulheres, bebês, familiares e profissionais da assistência à gravidez, parto e puerpério que se organizam diariamente em comunidades virtuais, grupos de discussão, blogs. E que antes ou depois disso se transformam em encontros pele-a-pele: rodas de grávidas, grupos de pós-parto, grupos de pais, marchas pelos direitos historicamente violados. Essa gente está construindo uma revolução científica abraçada pela força que as mulheres descobrem que podem ter. É o encontro da ciência humanizada com um conjunto de mulheres comuns, que se transformam em gente incomum para este mundo que releva o silêncio e a conformidade. Deste abraço em massa surge um movimento, uma marcha irrefreável de transformação.

Como consequência inevitável desta forma de existir em pares, há o abraço solidário e reverente àquelas mulheres que sofreram violências obstétricas que tantos ainda não conseguem ver como tal. O barulho que estas pessoas todas têm feito ganha sentido porque o ruído surge em nome da dignidade na hora do nascimento. Em prol da preservação dos direitos humanos mais básicos daquela mulher que trabalha com suas dores físicas e emocionais para parir o seu filho. O barulho é tantas vezes ensurdecedor, mas é numa altura que precisa acontecer já que nossos ouvidos estão moucos para o sofrimento destas mulheres.

Há, no meio dessa gente toda, algumas que se destacam por serem mais bélicas, e por isso representarem um grito que ficou abafado nas gargantas de tantas outras mulheres violentadas. Estas, chamadas ativistas, são as vidraças do momento, nelas são jogadas outras tantas pedras, porque afinal historicamente o lugar da mulher é o do silêncio, do conformismo e o do recato. Felizes nós, deste movimento, que temos o privilégio de contarmos com as gargantas delas, que têm o desejo doido de gritar na sala de estar confortável dos agressores sem nome. Elas se reviram do avesso em nome de todos nós. E isso também é amor.

Gratidão, mulheres todas que nos representam neste movimento. O amor de vocês que se revela na força vulcânica vocês têm para construir mantos de amor para os bebês chegarem ao mundo, e com a mesma intensidade conseguem ressoar no país inteiro um brado retumbante contra as violências que só agora começam a ganhar nome, cor e forma.

Os atos de vocês constroem mundos neste mundo. São coisas que os corações do país vão conseguir entender cada vez mais.

E as pedras que chegarem tentando silenciar as gargantas de vocês serão mero resto. Um resto que ainda não sabe contar, que ainda não se deixou surpreender por este amor coletivo que sentimos brotar a todo momento.

Além da força do amor de vocês e de todo este grupo maravilhoso, há um resto. E o resto é mar.

4 Replies to “Sobre as ativistas, seus gritos, as pedras e o amor que surge em nós”

  1. Todos chora. Fim. HAhahaha
    Jesus Cristo! Quanta verdade e quanto de mim e de tantas outras loucas esbaforidas por aí a fora, nestas linhas. Emocionou-me profundamente. ❤ Me senti presenteada com esta leitura!
    Bjus.

    1. Eu, ativista – sim! -, também posso gritar, e, confesso, parei de atirar pedras em quem que não concorda plenamente com o que eu grito. As pedras eu deixo para os inimigos e não para parte que eu quero que ouça, entenda e venha para o meu lado.
      Uma guerra é feita de várias táticas; há os que ficam na linha de frente, há os que ficam na retaguarda e há, também, os responsáveis pelo trabalho estratégico, predominantemente, silencioso.. Todos são parte do mesmo exército. É sábio reconhecer a importância de cada um.

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