Abaixo a ditadura tatibitate!

Muitos espaços de nossa cultura parecem ter se esquecido que a criança é um ser dotado de subjetividade, de temperamento, de uma identidade – ainda que todas estas características em formação, em constante processo de reforma interna. Nosso olhar sobre os pequenos está deformado, e decidimos deteriorá-lo justamente numa dimensão perigosa: acreditar que eles precisam ser diminuídos para se verem ainda menores. Para caberem em um espaço que desacredita no desejo deles de ganhar força para descobrir o mundo. Para serem sempre os nossos minúsculos companheiros de vida, agarrados a nossos peitos reais ou imaginários.

A infância é um despertar para a existência, dotada de um impulso natural de curiosidade para compreender o funcionamento de todas as coisas da vida. Eles são grandiosos em sua forma de engendrar as hipóteses sobre como tudo acontece. Eles são naturalmente eficazes para encontrar uma saída para suas perguntas mais existenciais. Do jeito deles, aliando a fantasia àquela capacidade de recomeçar sempre, vão crescendo e ensinando-nos a resgatar o olhar que muitos de nós vão perdendo com o passar dos anos.

Eles são grandes na sua tenacidade, na sua abertura para o novo, na sua habilidade de se vincularem com pessoas, amigos imaginários, flores, brinquedos, desenhos e tudo o que a natureza ofertar aos seus olhos. Eles são grandes. Grandes. E esta grandeza, que se exaspera em se manifestar, é o que precisamos voltar a ver em primeiro plano. É este o nosso esquecimento.

Estamos nos lembrando somente daquilo que ousamos construir: a imagem de um ser frágil, incapaz de ser autor da sua própria jornada. E o fato de sermos seus guias, faróis ou referências não é uma idéia que anula o direito deles serem autores das próprias vidas. Se queremos ser as mãos dadas para que eles cheguem à adultez com os olhos firmes e a alma sólida, é preciso que desde sempre eles sejam tratados como protagonistas de seus próprios passos. Será muito mais difícil para eles compreenderem que, a partir de um dado momento da vida, eles terão que encontrar a resiliência perdida por uma educação superprotetora e se fazerem de repente os adultos fortes que o mundo pede que eles sejam.

Assim como aprendemos a transformar a loucura em incapacidade, a orientação sexual em desvio e a postura política em risco de ditadura, estamos hábeis em infantilizar a infância. Uma das formas mais sutis para comunicar-lhes sua pequenez incapaz é a linguagem tatibitate. Conversar com ela como se ela não pudesse compreender a linguagem adulta, transformando a forma e o conteúdo de nossas falas para supostamente “caber” em sua visão de mundo.

E aqui eu faço um convite, que pode ser uma bela viagem. Converse com as crianças perto de você com a sua voz, no mesmo tom com que você conversa com um amigo íntimo. O que de diferente merece existir na sua forma de se comunicar com a criança é um manto amoroso genuíno neste encontro humano. Olhar para ela com o cuidado que ela merece ter, por estar nesta aventura de tentativa-e-erro de descobrir que mundo cheio de curvas é este em que vivemos. Não é necessário nenhum aforismo, descarte toda e qualquer deformação de sua voz e ocultação de consoantes para chegar até ela. Converse com ela, tranquilamente. A mensagem, nada subliminar, que estará no intertexto deste colóquio, é que você a considera como uma pessoa. Dotada do potencial de se desenvolver com a capacidade de fazer as escolhas que venham a delinear uma identidade em que se reconhecerá mais adiante. Uma pessoa que merece respeito, atenção, cuidado, amparo. Mas que igualmente merece ser vista no tamanho que já tem. Na grandeza de ser pequena somente no tamanho. E enorme em seu poder de ensinar-nos, os supostos mestres, a trilharmos caminhos melhores para nossas vidas errantes.

One Reply to “Abaixo a ditadura tatibitate!”

  1. Gostei muito desse texto. Eu tenho um filho de três anos com o qual converso com todo amor que cabe em mim, sem escolher palavras simples ou fazer frases curtas para que ele possa entender. Aos três anos, o meu guri se comunica muito bem e é reconhecido pelos amigos como um menino que fala, cria, canta e manifesta a sua opinião de modo surpreendente. Mas nem sempre foi assim e também não é assim com o meu segundo guri, que hoje completou dois meses. Enquanto bebês de alguns meses eu considero importante que falemos com eles através do manhês, que surge naturalmente nas nossas interações. Uma fala mais melódica, simples, uma música para o ouvido dos bebês, que os atrai e é usada, inclusive, como técnica intervenção precoce com bebês com sinais de risco psíquico. Com o meu bebê de dois meses eu uso naturalmente o “tatibitate” ou “Manhês”, que será abandonado nos próximos meses, por uma adaptação natural ao desenvolvimento dele.

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