Quando uma criança compreende o absurdo da violência

Ravi Palhacinho

“Papai, você sabe que bêbados batem em crianças?”

Assim, depois de um silêncio no carro enquanto passávamos pela praça e ele via pessoas vivendo o seu carnaval, Ravi (5 anos) fazia brotar uma conclusão baseada em evidências infantis, forjadas entre a observação e a imaginação. E como eu fico com a pureza da resposta das crianças, decidi continuar a conversa e explorar suas hipóteses sobre bêbados e violência contra a criança.

“É verdade, eles pegam as crianças, amarram elas e batem! Às vezes eles enforcam os bebês também!”
“Mas por que bêbados, filho?”
“Ué, Papai, porque eles estão loucos, eles bebem nove cervejas!” [Vem o silêncio da dúvida, em alguns segundos, e ele dispara]: “Nove é muito, né?”

“E que outras coisas os loucos fazem?”
“Eles dirigem rápido e batem em crianças”.

Impressionou-me como a associação que ele fez do significado de bater e da insanidade que isto representa. A falta total de sentido sobre alguém tocar no corpo de uma criança sem sua autorização, e utilizar deste poder autoritário para provocar-lhe dano, chamando isto de ato disciplinar. Nítido está que uma criança educada sem palmada pode ter a visão do absurdo que isto representa, porque em seu cotidiano não está o imperativo de ter que resignar-se com a violência que sofre, para manter o vínculo amoroso com seu pai ou sua mãe. Uma criança que tem o seu corpo respeitado constrói tamanha consciência de si, que lhe é inconcebível que alguém se apodere deste corpo como instrumento de punição. A menos que este adulto tenha sido visitado, ainda que temporariamente, por algum estado alterado de consciência, pela desrazão. A expressão “bêbado” pode compreender qualquer instância em que estamos fora de nossa ontologia, de nossa condição humana amorosa essencial, que nos leva a proteger as crianças de nossas próprias capacidades violentas. Um adulto que se percebe projetando suas violências internalizadas no corpo e na alma de uma criança merece viver algum diálogo desta natureza, com uma criança ou com outros adultos, para distinguir com mais nitidez o que provavelmente seus olhos já não podem ver.

Urge, em nossos dias, que tenhamos coragem de construir um cenário de intolerância absoluta contra nossas capacidades de transformar as relações com as crianças em espaços de projeção de nossas iras, tristezas e sentimentos não elaborados das fases mais duras de nossos passados. É uma fronteira que merecemos construir, porque neste muro de arrimo estamos alicerçando a cura de nossas vivências mais deletérias. Impedindo nossas violências de se expressarem com uma criança, estamos dignificando nossas existências. Estamos construindo uma transposição, para muito melhor, de nossas imagens no espelho.

Porque dói, para quem está consciente do que isto representa, olhar-se no espelho e deparar-se com o mal uso da autoridade, transformando a força que estaria a serviço do afago para atuar como um carrasco que lamentavelmente ainda tem sua legitimidade garantida entre nós.

E que a loucura possa ser vista como o espaço de liberdade, de expansão de nossas limitações. E nunca o sinônimo de violação ao sagrado corpo de um ser humano. Sobretudo, o de uma criança, que muitos ainda insistem em querer crer que possuem.

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