Gravidez, Parto e Puerpério – Nossos pressupostos de trabalho

Sanca

Foto: Vivian Scaggiante, http://www.alemdoolhar.com.br
Evento: I Congresso de Parto da UFSCar – São Carlos, Setembro de 2013.

Nossa forma de ver esta tão importante fase do desenvolvimento das famílias e, particularmente, da díada mãe-bebê, está alicerçada em pressupostos sistêmicos e humanistas, abarcando inclusive o cuidado dos profissionais que prestam a assistência a estas mulheres, bebês e famílias:

1) A Psicologia vem negligenciando a gestação e o nascimento nas suas pesquisas e no espectro da difusão do conhecimento sobre o desenvolvimento humano. É estranhíssimo perceber isto, mas o fato é que os principais manuais de Psicologia do Desenvolvimento (disciplina introdutória e pertencente ao currículo mínimo da formação de psicólogos) começam com os estágios da vida do bebê. Não há um olhar para a mãe, para a transformação desta mulher que deixa de ser filha para cuidar de um filho. Os comentários sobre a gravidez costumam ser meramente fisiológicos, abordando o binômio mudanças hormonais-alterações de humor da grávida. Nós sabemos que há muito mais do que isto. Sobretudo nós, que trabalhamos com a humanização do cuidado à mulher no ciclo gravídico-puerperal, testemunhamos a força deste período como definidora da estrutura emocional que a mulher e a família podem sedimentar para enfrentar os desafios que um filho inevitavelmente lhes trará.

2) O parto é visto como um grande evento que transforma a mulher, seu cônjuge e demais membros da sua rede social, introduzindo um momento mítico para sua vinculação com o bebê. O modelo tecnocrático de assistência ao nascimento humano alterou o lugar de protagonismo da cena do parto. O médico é o centro do processo, e a mulher uma entidade passiva que cumpre ordens sobre como estar e o que fazer para que o filho supostamente “nasça bem”. Estamos alinhados a todo o Movimento pela Humanização do Nascimento Humano, que legitima o protagonismo feminino na cena do parto, alinhava condutas profissionais coerentes com este pressuposto e transforma a equipe de saúde em pessoas que estão ao lado da mulher (e não dando-lhe ordens que lhe diminuam ou lhe outorguem um lugar coadjuvante em sua própria vida) , acompanhando o seu processo íntimo e pessoal de redescoberta de si e da sua vinculação com seu filho durante o trabalho de parto. Reconhecemos o poder transformador deste evento na configuração desta relação mãe-bebê, bem como no rearranjo das estruturas do casamento pela chegada de um filho – seja ele o primogênito ou não. Neste modelo, a mulher é convidada a encontrar seus recursos resilientes, muitas vezes soterrados por definições apequenadas de si mesma, ritualizando tantas vezes a chegada de uma nova identidade de mulher após o atravessamento de todo este portal de experiências fundantes e inesquecíveis.

3) A relação do profissional de saúde humanizado com a grávida é coerente com o pressuposto de que maternar é operar no mundo de forma autônoma. Desde a gravidez, a mulher é inserida em um campo dialógico com os profissionais de saúde (obstetras, enfermeiras obstetras, obstetrizes, doulas, educadoras perinatais, fisioterapeutas, psicólogos, etc.) que lhe prepara para o mundo que vai fazer parte de seu panorama futuro: o da tomada de decisões. Criar um filho é uma das funções mais desafiadoras da existência, e a todo momento as mães estão sendo chamadas para tomarem decisões em todas as instâncias da vida de seus filhos. Nada mais coerente, portanto, que esta mulher à espera do nascimento de seu filho seja tratada pelos profissionais de saúde como um sujeito dotado de capacidade de decidir, de empreender sua própria existência. As mulheres não são tratadas como “mãezinhas”, nem tampouco despersonificadas em rituais assépticos, que a desconectem de sua história e de sua identidade. A mulher é o fio condutor das práticas dos profissionais de saúde, e não o contrário; o profissional humanizado é um aprendiz contínuo na escuta das necessidades das mulheres grávidas, de seus cônjuges e de suas famílias.

4) Nossa visão de mundo é sistêmica. Isto significa que lemos todos os fenômenos que observamos são compreendidos como parte de uma teia maior que é inatingível por qualquer método ou por qualquer olhar. Tudo o que vemos é uma parte de um mundo que nossos olhos não podem ver, porque o que chamamos de “realidade” é na verdade um complexo de inúmeros elementos que se entrelaçam e se transformam a todo momento. Assim, já que o mundo é tão mutante e interconectado, uma das formas de ampliar nossa capacidade de perceber a realidade é conversar. Porque cada pessoa é um mundo em si, cada pessoa tem a sua história de vida, a sua cultura e os seus conceitos, que se transformam em uma forma diferente de captar o que a vida tem a lhe ofertar. Conversando, temos acesso às percepções do outro, e ampliamos nossos conceitos sobre qualquer fenômeno humano. Por isto rodaviva, por isto nossas atividades são sempre dialógicas; sejam elas um curso ou uma palestra, um workshop ou uma postagem em rede social. Somos profissionais do diálogo, da interação. Vemos o mundo como um conjunto de inúmeras interações, e assim também é a nossa forma de construir conhecimento. (“Mestre não é aquele que sempre ensina, mas quem de repente aprende”, Guimarães Rosa)

5) Assumimos que o caminho da humanização de um profissional de saúde é extenso, não-linear e profuso em desafios. E quem escuta mesmo o profissional de saúde, em sua jornada diária de proposições quase sempre recebidas com desconfiança, descrédito e desqualificação? Como fica a alma deste profissional, que se propõe a humanizar a sua assistência, estando a todo o tempo sujeito a sentir-se invisível diante do status quo tecnocrático? Uma de nossas maiores preocupações se transforma em foco de trabalho: queremos escutar estes profissionais humanizados, ou em processo de transição paradigmática de assistência perinatal. Queremos contribuir para a sustentação de seus princípios humanistas, reconhecendo a dureza que este tipo de assistência pode significar, enquanto posicionada em um lugar mais marginal nas práticas de atenção à saúde da mulher. Ofertar-lhes espaços de escuta e de construção de alternativas para os principais impasses relacionais que vivem durante o trabalho humanizado. Porque humanizar-se é, também, sentir-se amparado. Há que se cuidar destes cuidadores, para que se garanta a sua longevidade neste tipo de assistência, e se evitem os processos de adoecimento psíquico decorrentes do desgaste da prática profissional.

Estes pressupostos do trabalho do Instituto rodaviva com a Assistência Perinatal são o início de um caminho que é visto sempre como um gerúndio (“O caminhar se faz caminhando”, Humberto Maturana). Sabemos que estamos lançando algo muito novo, e que precisa ser feito com muito cuidado, ética, amparo conceitual e humildade. Somos aprendizes deste campo que estamos trilhando em conjunto com todas as pessoas envolvidas na humanização. Num breve porvir já seremos outros, transformados pelos encontros com grávidas, com os profissionais de saúde, com a família em torno do bebê que vem ao mundo, com outros psicólogos e com todos os interloucutores que queiram se aproximar para contribuir com nossas práticas e ampliar nossos contextos conceituais. O diálogo é uma espiral de abertura infinita, está sempre disposto a integrar mais e mais gente. Somos arquitetos destes diálogos empoderadores, e lhes convidamos para fazerem parte de nossas atividades, em qualquer meio virtual ou espaço físico em que o rodaviva estiver presente.

Sejam bem-vindos!

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